A defesa da médica Juliana Brasil Santos, investigada pela morte do menino Benício Xavier de Freitas, de 6 anos, sustenta que o erro de prescrição que levou à administração de adrenalina por via intravenosa — procedimento que agravou o quadro clínico da criança — foi provocado por uma falha do sistema informatizado do Hospital Santa Júlia, e não por ação ou negligência da profissional. As informações constam no habeas corpus preventivo apresentado ao Tribunal de Justiça do Amazonas (TJAM).
Os advogados apresentaram um vídeo que, segundo eles, demonstra problemas na plataforma de prescrição utilizada pela unidade.

Um trecho do habeas corpus — baseado no depoimento do pediatra Luiz Felipe Reis Carvalho Sordi, que também atua no Hospital Santa Júlia — reforça essa possibilidade. Ele afirma que o software possui um campo no qual a via é “clicada”, mas que o sistema pode, sozinho, modificar a forma de administração, sem intervenção do prescritor, especialmente no caso de medicamentos de alta vigilância, como a adrenalina.

Médica teria seguido os protocolos após ser informada da aplicação incorreta
Segundo a defesa, Juliana não aplicou a medicação — o procedimento foi realizado por uma técnica de enfermagem. A médica só tomou conhecimento de que a adrenalina havia sido administrada na veia quando foi chamada pela equipe. A partir desse momento, conforme o documento, ela:
- encaminhou o menino imediatamente à sala vermelha;
- permaneceu ao lado do paciente durante todo o atendimento;
- solicitou a transferência urgente para a UTI;
- prescreveu o antídoto adequado (propranolol), embora sua aplicação tenha sido impedida pelo intensivista;
- continuou acompanhando o caso mesmo após o fim do plantão.
A defesa frisa que não houve indiferença ao risco de morte, afastando a hipótese de dolo eventual levantada pela polícia. “Erro não configura dolo”, afirmam os advogados.
Falha sistêmica e falha de checagem
O habeas corpus destaca que a prescrição estava correta em todos os parâmetros — dose, intervalo e indicação — exceto na via de administração, que teria sido modificada automaticamente pelo sistema. A defesa também aponta falha de checagem da enfermagem, já que a mãe de Benício chegou a questionar a técnica antes da aplicação do medicamento.
Investigações e divergências nos depoimentos
Apesar dos argumentos da defesa, o delegado Marcelo Martins, titular do 24º DIP, confirmou que investiga a possível falha do sistema, mas classificou o caso como homicídio doloso qualificado, incluindo a hipótese de crueldade. Ele chegou a pedir a prisão preventiva da médica, mas Juliana permanece em liberdade graças ao habeas corpus concedido pela Justiça.
A Polícia Civil já ouviu o médico Enryko Queiroz, que confirmou as trocas de mensagens com Juliana no dia do atendimento, e o enfermeiro Tairo Neves, que disse ter trabalhado sozinho — o que contraria a versão apresentada pela médica. Uma acareação entre Juliana e a técnica de enfermagem está marcada para o dia 4.
